as pequenas coisas

2 de dezembro de 2011
por elisa
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“Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo “esboço” não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.”
- A Insustentável Leveza do Ser

17 de novembro de 2011
por elisa
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ronronronronron…

Um é charmoso e esperto. Gosta de dar e receber carinho, mas no tempo dele. Fica quieto, observando… Aguarda o melhor momento, seja para se aventurar em novos mundos, seja para dar um bocejo. Chama a atenção de tão bonito, mas só se aproxima de quem realmente ama. E quando quer. Decide ir até um lugar e no meio do caminho muda de opinião, sem fazer questão de prestar satisfações.

O outro é atrapalhado e bobo. Carente, mal chego em casa e já quer atenção. Mia por qualquer motivo, demonstra satisfação na menor demonstração de afeto e exige amor agora, já! Tem muita desenvoltura e nenhum pudor em demonstrar que ama e quer ser amado. Não muda de opinião e tem um comportamento tão previsível que chega a ser cômico. Tem uma beleza comum, popular até.

São meus dois lados, minhas duas facetas, meus dois corações.

Nasceram e foram abandonados num motor de carro, logo encontrados por um centro de adoção. Me culpo por tirar a liberdade deles, por não deixar seguirem o curso de sua natureza felina. Caçadores natos, possuem audição e visão aguçadas, mas em minha casa limito-os a formigas e mosquitinhos que por vezes aparecem. Mas a cada ronronar tiro um tanto da culpa dos ombros: também não sou livre, e ao menos aqui temos – eu e eles – comida, um lar seguro e muito amor.

A dualidade do amor. Liberta e aprisiona, une e separa, faz crescer e ao mesmo tempo exige que escolhas sejam feitas. Ainda não aprendi a lidar com suas duas facetas. Talvez, se pudesse me dividir em duas, como meus gatos, as entenderia. E seria mais completa.

9 de novembro de 2011
por elisa
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Tabacaria no metrô

“Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.”

__

Alguém resolve colar alguns versos de Tabacaria no túnel do metrô Vila Madalena. “Para trazer cultura às massas”, devem pensar. Acho digno. Mas justo essa parte do poema?

Mal sabem que diariamente contribuem com o ressurgimento da minha dor. Aquela que cuido todas as noites com carinho, tiro o pó, dou polimento e deixo guardada numa redoma que me permite encará-la e não vivê-la o tempo inteiro. Só assim consigo me manter sã. Acordo, imagino um sorriso no rosto, me limpo, me arrumo, me maquio. Coloco o som mais alegre no mp3 e vou ao trabalho. E lá vem ela, me tirar do chão outra vez…

Poesia é cultura, eu sei. Mas em alguns casos, são drogas que causam dependência – e matam aos poucos, com requintes de crueldade. Não me venham falar mal dos cigarros!

5 de novembro de 2011
por elisa
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um certo autismo me salva… e me condena

Recém-chegados na cidade mais charmosa do mundo (ou a mais charmosa-e-acessível-do-nosso-mundo-aquele-ano), nos instalamos num apartamento igualmente fofo em Palermo. Bairro classe média alta (tipo Higienópolis, só que com mais buracos no asfalto, prédios mais baixos e muito, muito mais cocô de cachorro nas calçadas), com árvores frondosas, lojinhas alternativas e padarias deliciosas.

Eu terminava de lavar a louça. O dia estava lindo e tínhamos pressa para sair e conhecer mais a cidade, desde que não fossem roteiros pré-estabelecidos (ainda amo isso!). Era bom sairmos logo para aproveitar o dia.

Louça já no escorredor, reparei num raio de luz diferente, que ao bater num copo e ricochetear em outro, dava uma luminosidade toda nova à cozinha, com as cores do arco-íris. Fiquei ali o que imaginei serem horas (mas foram apenas alguns minutos), pensando no raio, no meu coração que há pouco deixara de ser meu, e desenvolvia relevos coloridos, luminosos como os do raio. O amor, sorrateiro, estava sendo bordando permanentemente em mim, e eu começava a perceber.

Olhei para o lado, o vi, e dei a ele um daqueles sorrisos que eu não percebo, mas são tão sinceros, alegres e carinhosos que por vezes derretem corações.

Em retorno, recebi uma respiração impaciente, um gesto brusco, seguido de um olhar recriminante:

- Mas você é assim mesmo, é?! Vamos logo!

Naquele instante, compreendi que éramos completamente diferentes na composição mais básica da alma – se é que ela existe mesmo. Mas o amor era tão grande, aquelas mãos eram tão macias e aquela voz que cantava para mim era tão linda que fiz um trato comigo mesma de tentar fazer de tudo para me adaptar. Daria a ele um amor diferente, único. Não teríamos rotina. Me tornaria mais atenta, falaria de coisas inteligentes e seríamos muito felizes. E foi assim o início do fim.

3 de novembro de 2011
por elisa
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meu coração não se cansa

de ter esperança e acreditar que amores possíveis (e gostosos) podem ter o mesmo charme de amores impossíveis.

uma playlist para beijos roubados que não ligam pra chuva do mundo

25 de outubro de 2011
por elisa
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torta de limão

Descobriu que a acidez é que não deixa toda a gostosura e perfeição do recheio doce ficar enjoativo demais.

Agradável, é o trivial que nos mata aos poucos…

24 de outubro de 2011
por elisa
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“e viu que estava bom”

Sol. Barulho de maracatu ao fundo – é a última festa do Boi do ano, e apesar de querer muito estar lá, aqui o dia está mais do que perfeito.

Observo ele cozinhar para nós, sempre faço isso como se fosse a primeira vez, não consigo me acostumar.

O gosto da sua comida, o jeito que coça a cabeça de costas para mim, encarando o fogão e bolando as proporções dos temperos. Pega um, fecha os dedos e sacode as mãos em sinal de aprovação da escolha – é um italiano, não importa que tenha nascido em Ribeirão Preto. Pega outro condimento, desiste no meio do caminho e volta para a bancada com um rodopio. Acredito piamente que estas voltas fazem parte de um ritual, necessário para a boa cocção, assim como a batida do garfo na borda da panela, os gestos medidos e o sutil nervosismo.

O cheiro. Do suor, das cebolas, da mão grande e macia, da pimenta síria, do sangue da carne (e do meu) borbulhando e virando vapor. Ele não o deixa evaporar por completo, “que é pra carne ficar molinha”. Prova um pedaço, e faz outro daqueles gestos italianados. Sorri de contentamento ao me servir, aguardando ansiosamente pela minha resposta à sua refeição. O gosto de café no copo com coca-cola, e do chocolate sem escovar os dentes – “que assim fica mais gostoso acordar” -, também fazem parte de toda a experiência que irei desfrutar agora.

Tudo pronto, agora entra a parte mais conhecida do roteiro. Tanto, que por vezes finjo não ter reação à comida, como se fosse uma refeição trivial para fazer o momento durar mais. Aguardo e observo a ansiedade dele crescer até explodir num suplicante “até que o tempero não está tão mal, não é mesmo?”, me olhando por cima dos óculos.

Olhos suplicantes até o momento que não me seguro mais e digo que sim, está uma delícia. Antevejo seu assentimento com a cabeça, num contentamento tão pleno que fecha os olhos.

Adoro tanto estes momentos, que gostaria de gravá-los e levá-los pendurados comigo, como um amuleto. Assim como o registro que pedi que ele fizesse, do momento em que senti um calor de amor inesperado (do brando, à la Karina Buhr mas ligeiramente apimentado). É bom gravar esses momentos. São combustível para sorrisos, abraços que completam e um bom humor que irradia pras outras pessoas.

Gosto assim, dele.

23 de outubro de 2011
por elisa
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sapatos apertados

Quando digo que meus fósforos se acabaram, é porque já os queimei todos no amor mais puro que alguém já viu (ou já sonhou em ter) nesse mundo. Todos de uma vez. Mas apesar de tudo já me acostumei com essa ausência.

Agora me vejo uma destruidora de fósforos alheios. Não só os tomo por meus como acendo mil cigarros e vou consumindo devagarzinho, na frente da pessoa furtada, jogando nela as bitucas e os palitos já queimados.

E me vejo deteriorando, me tornando uma pessoa cada vez mais desinteressande, cada vez menos útil, cada vez mais estúpida e sem princípios. O que fazer com um ser humano assim, que além de não acrescentar nada, se dá ao trabalho de machucar as únicas pessoas que ainda acreditam que possui um lado bonito, delicado, gentil…?

Mas amanhã é segunda-feira e eu tenho que trabalhar. Talvez apenas por ser um motivo para sair da cama e enfrentar o mundo novamente – pelo menos ali não sabem das atrocidades que posso fazer com um coração puro, isso pouco importa contanto que continue produzindo planejamentos criativos.