24 de outubro de 2011
por elisa
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Sol. Barulho de maracatu ao fundo – é a última festa do Boi do ano, e apesar de querer muito estar lá, aqui o dia está mais do que perfeito.
Observo ele cozinhar para nós, sempre faço isso como se fosse a primeira vez, não consigo me acostumar.
O gosto da sua comida, o jeito que coça a cabeça de costas para mim, encarando o fogão e bolando as proporções dos temperos. Pega um, fecha os dedos e sacode as mãos em sinal de aprovação da escolha – é um italiano, não importa que tenha nascido em Ribeirão Preto. Pega outro condimento, desiste no meio do caminho e volta para a bancada com um rodopio. Acredito piamente que estas voltas fazem parte de um ritual, necessário para a boa cocção, assim como a batida do garfo na borda da panela, os gestos medidos e o sutil nervosismo.
O cheiro. Do suor, das cebolas, da mão grande e macia, da pimenta síria, do sangue da carne (e do meu) borbulhando e virando vapor. Ele não o deixa evaporar por completo, “que é pra carne ficar molinha”. Prova um pedaço, e faz outro daqueles gestos italianados. Sorri de contentamento ao me servir, aguardando ansiosamente pela minha resposta à sua refeição. O gosto de café no copo com coca-cola, e do chocolate sem escovar os dentes – “que assim fica mais gostoso acordar” -, também fazem parte de toda a experiência que irei desfrutar agora.
Tudo pronto, agora entra a parte mais conhecida do roteiro. Tanto, que por vezes finjo não ter reação à comida, como se fosse uma refeição trivial para fazer o momento durar mais. Aguardo e observo a ansiedade dele crescer até explodir num suplicante “até que o tempero não está tão mal, não é mesmo?”, me olhando por cima dos óculos.
Olhos suplicantes até o momento que não me seguro mais e digo que sim, está uma delícia. Antevejo seu assentimento com a cabeça, num contentamento tão pleno que fecha os olhos.
Adoro tanto estes momentos, que gostaria de gravá-los e levá-los pendurados comigo, como um amuleto. Assim como o registro que pedi que ele fizesse, do momento em que senti um calor de amor inesperado (do brando, à la Karina Buhr mas ligeiramente apimentado). É bom gravar esses momentos. São combustível para sorrisos, abraços que completam e um bom humor que irradia pras outras pessoas.
Gosto assim, dele.